Monstros

"Não tenho mais nenhum compromisso com aqueles monstros chamados seres humanos. Eu mesma me desprezo por fazer parte deles. Acho que Peeta tinha certa razão quando disse que poderíamos destruir uns aos outros e deixar que outras espécies decentes assumissem o planeta. Porque há algo significativamente errado com uma criatura que sacrifica as vidas de seus filhos para resolver suas diferenças. Para onde quer que você se vire, você enxergará esse tipo de visão de mundo".

Katniss Everdeen em "A Esperança" (por Suzanne Collins)

Indestrutíveis

Somos capazes de sobreviver a essas coisas horríveis, pois somos tão indestrutíveis quanto pensamos ser. Quando os adultos dizem: "Os adolescentes se acham invencíveis", com aquele sorriso malicioso e idiota estampado na cara, eles não sabem o quanto estão certos. Não devemos perder a esperança, pois jamais seremos irremediavelmente feridos. Pensamos que somos invencíveis porque realmente somos. Não nascemos, não morremos. Como toda energia, nós simplesmente mudamos de forma, de tamanho e de manifestação. Os adultos se esquecem disso quando envelhecem. Ficam com medo de perder e fracassar. Mas essa parte que é maior que a soma das partes não tem começo e não tem fim, e, portanto, não pode falhar.
Quem é você, Alasca? - John Green

Labirinto

"Passamos a vida inteira no labirinto, perdidos, pensando em como um dia conseguiremos escapar e em quanto será legal. Imaginar esse futuro é o que nos impulsiona para a frente, mas nunca fazemos nada. Simplesmente usamos o futuro para escapar do presente."
Alasca Young em "Quem é você, Alasca?" 
É verdade o que ela diz. Pelo menos quando aplicado a minha vida.
Não sei exatamente qual é o problema, não consigo descobrir. Fico fantasiando o dia em que tudo mudará. Uso a desculpa, de que se eu esperar pacientemente tudo ficará legal, como uma forma de levantar de manhã, dia após dia.
Preciso urgentemente mudar as coisas, escolher uma direção e andar firme nela. A questão é que nunca fui muito firme com as promessas que faço a mim mesmo.
Talvez eu esteja esperando que alguém me tire do labirinto. Que um dia eu acorde, venha alguém, me puxe pela mão e diga "olha só, chega! Faça isso, faça aquilo. Abandone isso", etc.
É claro que no fundo eu sei que ninguém o fará por mim. Eu preciso criar coragem - seria esse o termo mais adequado? Não me sinto acovardado - e tomar o papel principal na minha vida. Abandonar essa posição de coadjuvante de meus próprios atos.
Ficar com auto piedade não ajuda em muita coisa. Mas como fazer para não ficar me lamentando? Tá eu reconheço que é errado e que isso só me afunda ainda mais, mas o que devo fazer para não ter esse tipo de pensamento?
Enfim, acho que pensar (e fantasiar) demasiadamente no futuro não é muito saudável... é mais uma forma diferente de nostalgia que qualquer outra coisa.

Ambição voraz

Era muito provável que eu nunca mais fosse ver o oceano de uma altura de trinta mil pés de novo, uma distância tão grande que não dá nem para distinguir as ondas, nem nenhum barco, de um jeito que faz o oceano parecer um enorme e infinito monólito. Eu poderia imaginá-lo. Eu poderia me lembrar dele. Mas não poderia vê-lo de novo, e me ocorreu que a ambição voraz dos seres humanos nunca é saciada quando os sonhos são realizados, porque há sempre a sensação de que tudo poderia ter sido feito melhor e ser feito outra vez.
E mesmo se você conseguir chegar aos noventa anos, deve dar essa mesma sensação - embora eu inveje as pessoas que têm a oportunidade de comprovar isso. Mas, pensando bem, eu já tinha vivido o dobro do tempo que a filha do Van Houten. O que ele não teria dado para ter uma filha morta aos dezesseis anos...
A culpa é das estrelas - John Green

A lua em eterno movimento

esse moldador de sombrio e mutável olhar
a mão estendeu para o céu negro tocar.
arrancou a lua, mas não a manteve parada.
e agora ela oscila entre mortal e encantada.

tua história, aí a tens.
são o teu como e o teu quem.
resta agora um segredo final.
atenta, mocho, com teu ouvido mortal.

tem a lua nossos dois mundos enfeitiçados,
qual pais ao mesmo filho agarrados.
cada um para seu lado a puxar,
sem que possam reter nem largar.

quando puxada, em teu céu pela metade,
vês a distância que nossa união invade.

por longo o tempo que nos beijemos,
nenhuma força nesse espaço exercemos.

e quando a tua lua brilha, cheia,
todos os encantados prende em sua teia.
impele-nos para junto feito açoite,
e então, uma visita de uma noite
é fácil como um largo portal cruzar,
como em mansa praia aportar.

e foi assim que, vagando nos ermos, sozinho,
Feluriana encontraste, varãozinho.

E de todos o Encantados isso é verdade?
sabendo o caminho e tendo vontade,
mil portas semicerradas
mantêm teu mundo e o meu interligados.

E como isso nunca foi sabido?
Seria difícil passar despercebido.
Fadas dançando pelo mortal relvado...
assim não se deu há pouco, no passado?
longo é o tempo e vasto o chão,
mas inda assim me ouviste a canção,
antes de ali me veres a cantar,
penteando o cabelo com o luar.

Parece-me, porém,
que outros outros sinais haveria desse vaivém.
sutis e furtivos são os encantados,
leves qual fumaça em passos ensaiados.
envoltos em sombras circulam uns entre os teus,
ora carregados de fardos como pobres plebeus,
ora, talvez, em mantos de rainha vestidos.
sabemos agir para não ser percebidos.

muitos haveria, os de tipo mais malsão,
ávidos por usar os teus por diversão.
o que lhes barra esse ataque enluarado?
o ferro, o fogo, o vidro espelhado.
o olmeiro, o freixo e facas de cobre,
esposas camponesas de coração nobre,
que as regras conhecem dos jogos que fazemos,
que pão nos deixam, e a distância mantemos.
mas o pior de tudo, o que mais pavor nos traz,
é o poder que perdemos ao pisar na terra dos mortais.

enquanto ela está cheia, teu riso é precioso,
mas fica tu sabendo que há um lado tenebroso.

teme o sensato mortal
a noite sem do luar um sinal.

em noite assim, a cada pequeno passo,
a escura esteira da lua te aprisiona em seu laço.
para o mundo encantado te sentes atraído, sem querer.
e lá, nada te restará senão permanecer.

em terreno tão inexplorado a pisar,
que pode um mortal senão se afogar?

faço isso para que não deixes de escutar.
o homem sábio teme as noites sem luar.

O Temor do Sábio - Patrick Rothfuss

Capítulo 17

- Então o que a gente devia fazer nos nossos últimos dias?
- Só quero passar todos os minutos possíveis do resto da minha vida com você - responde Peeta.
- Vem cá, então - digo, puxando-o para o meu quarto.
Parece um grande luxo dormir novamente com Peeta. Não havia percebido até agora o quanto estava sedenta de contato humano. Da sensação de tê-lo ao meu lado no escuro. Gostaria muito de não ter desperdiçado as últimas noites evitando-o. Mergulho no sono, envolvida em seu calor, e quando abro novamente os olhos, a luz do sol está entrando pelas janelas.
- Sem pesadelos - diz ele.
- Sem pesadelos - confirmo. - E você?
- Nada. Já tinha esquecido de como era uma verdadeira noite de sono.
Ficamos deitados por um tempo, sem nenhuma pressa para começar o dia. Amanhã à noite será a entrevista na televisão, então hoje Effie e Haymitch vão passar o dia nos orientando. Mais salto alto e comentários sarcásticos, acho. Mas então a ruiva Avox entra com um bilhete de Effie dizendo que, devido à nossa recente turnê, tanto ela quanto Haymitch concordaram que sabemos nos comportar em público adequadamente. As sessões de treinamento foram canceladas.
- É mesmo? - diz Peeta, pegando o bilhete na minha mão e examinando-o. - Você sabe o que isso significa? Teremos o dia inteiro para nós dois.
- Mas é muito ruim a gente não poder ir a lugar algum - digo, em tom de lamentação.
- Quem disse que não?
O terraço. Pedimos um monte de comida, pegamos alguns cobertores e vamos direto para o terraço fazer um piquenique. Um piquenique de um dia inteiro no jardim repleto de sininhos do vento. Nós comemos. Ficamos deitados ao sol. Arranco algumas trepadeiras e uso o meu recém-adquirido conhecimento para dar nós e tecer redes. Peeta me desenha. Inventamos um jogo com o campo de força que cerca o terraço - um de nós joga uma maçã em cima do outro e a outra pessoa tem que pegá-la.
Ninguém nos perturba. No fim da tarde, deito-me com a cabeça no colo de Peeta e faço uma coroa de flores enquanto ele mexe nos meus cabelos, afirmando que está treinando fazer nós. Depois de um tempo suas mãos ficam paradas.
- O que é?
- Gostaria muito de poder congelar esse momento, bem aqui, nesse instante, e viver assim para sempre - diz ele.
Normalmente essa espécie de comentário, o tipo que indica seu eterno amor por mim, faz com que eu me sinta mal e culpada. Mas estou me sentindo tão aconchegada e relaxada, e além de qualquer preocupação com um futuro que jamais terei, que simplesmente deixo a palavra me escapar dos lábios:
- Tudo bem.
Posso ouvir o sorriso na voz dele.
- Então você permite?
- Permito.
Os dedos dele voltam para os meus cabelos e adormeço, mas ele me desperta para que eu vejo o pôr do sol. É uma espetacular tonalidade alaranjada por trás dos arranha-céus da Capital.
- Imaginei que você não fosse querer perder isso.
- Obrigada - digo. Porque consigo contar nos dedos o número de vezes em que vi o sol se pondo e não quero perder mais nenhum.
Não nos juntamos aos outros para o jantar e ninguém nos convoca.
- Estou contente. Estou cansado de deixar todo mundo triste ao meu redor - diz Peeta. - Todo mundo chorando. Ou Haymitch... - Ele não precisa continuar.
Ficamos no terraço até a hora de dormir e então voltamos em silêncio para o meu quarto sem encontrar ninguém.

Em Chamas, Suzanne Collins

Interlúdio - As partes que nos formam


- Então, para você, descrever uma bela mulher é tão simples quanto contemplá-la?
Bast baixou os olhos e enrubesceu, e Kvothe pôs a mão em seu braço, com delicadeza, sorrindo:
- O meu problema, Bast, é que ela é muito importante. Importante para a história. Não consigo pensar num modo de descrevê-la sem ficar aquém da realidade.
- Acho... acho que entendo, Reshi - disse Bast em tom conciliatório. - Também a vi. Uma vez.
Kvothe reclinou-se na cadeira, surpreso.
- Foi mesmo, não é? Eu havia esquecido - disse. Pressionou a boca com as mãos. - E como você a descreveria?
Bast se iluminou ante essa oportunidade. Endireitando-se na cadeira, assumiu um ar pensativo por um momento e disse:
- Tinha orelhas perfeitas.- Fez um gesto delicado com as mãos. - Orelinhas perfeitas, como se tivessem sido entalhadas em... alguma coisa.
O Cronista riu, depois pareceu voltar atrás, como se tivesse surpreendido a si mesmo.
- Orelhas? - perguntou, como se não tivesse certeza de haver escutado direto.
- O senhor sabe como é difícil encontrar uma moça bonita com o tipo correto de orelhas - retrucou Bast com ar displicente.
O Cronista tornou a rir, parecendo achar mais fácil fazê-lo da segunda vez.
- Não. Tenha certeza de que não sei.
Bast lançou um olhar de profunda piedade ao colecionador de histórias.
- Bem, nesse caso, terá que aceitar minha palavra. As dela eram excepcionalmente bonitas.
O Nome do Vento, Patrick Rothfuss

"- Então, para você, descrever uma bela mulher é tão simples quanto contemplá-la?
Bast baixou os olhos e enrubesceu, e Kvothe pôs a mão em seu braço, com delicadeza, sorrindo:
- O meu problema, Bast, é que ela é muito importante. Importante para a história. Não consigo pensar num modo de descrevê-la sem ficar aquém da realidade.
- Acho... acho que entendo, Reshi - disse Bast em tom conciliatório. - Também a vi. Uma vez.
Kvothe reclinou-se na cadeira, surpreso.
- Foi mesmo, não é? Eu havia esquecido - disse. Pressionou a boca com as mãos. - E como você a descreveria?
Bast se iluminou ante essa oportunidade. Endireitando-se na cadeira, assumiu um ar pensativo por um momento e disse:
- Tinha orelhas perfeitas.- Fez um gesto delicado com as mãos. - Orelinhas perfeitas, como se tivessem sido entalhadas em... alguma coisa.
O Cronista riu, depois pareceu voltar atrás, como se tivesse surpreendido a si mesmo.
- Orelhas? - perguntou, como se não tivesse certeza de haver escutado direto.
- O senhor sabe como é difícil encontrar uma moça bonita com o tipo correto de orelhas - retrucou Bast com ar displicente.
O Cronista tornou a rir, parecendo achar mais fácil fazê-lo da segunda vez.
- Não. Tenha certeza de que não sei.
Bast lançou um olhar de profunda piedade ao colecionador de histórias.
- Bem, nesse caso, terá que aceitar minha palavra. As dela eram excepcionalmente bonitas."

- O Nome do Vento, Patrick Rothfuss
“Mijail me disse que, por alguma razão, a vida costuma nos oferecer exatamente aquilo que não buscamos. Para ele, a vida trouxe fortuna, fama e poder. Sua alma só ansiava por paz de espírito para poder afastar as sombras que abrigava no coração...”

Techo de "Marina", por Carlos Ruiz Zafón

Lullaby

When you're so lonely lying in bed
Night's closed it's eyes but you can't rest your head
Everyone's sleeping all through the house
You wish you could dream but forgot to somehow
Sing this lullaby to yourself
Sing this lullaby to yourself
Jack Johnson

Marina

Zafón nos presenteia novamente com uma narrativa poética e de tirar o fôlego.
Terminei de ler ontem.

"A gente só se lembra do que nunca aconteceu".

For Reasons Unknown

Olho no espelho. Não me reconheço mais.
Lembro:
I pack my case, I check my face
I look a little bit older
I look a little bit colder
With one deep breath, one big step
I move a little bit closer, I move a little bit closer
For reasons unknown...

I caught my stride, I flew and flied
I know if destiny's kind, I've got the rest on my mind
Well my heart, it don't beat, it don't beat the way it used to
And my eyes, they don't see you no more
And my lips, they don't kiss, they don't kiss the way they used to
And my eyes don't recognize you no more

For reasons unknown
For reasons unknown