Capítulo 17

- Então o que a gente devia fazer nos nossos últimos dias?
- Só quero passar todos os minutos possíveis do resto da minha vida com você - responde Peeta.
- Vem cá, então - digo, puxando-o para o meu quarto.
Parece um grande luxo dormir novamente com Peeta. Não havia percebido até agora o quanto estava sedenta de contato humano. Da sensação de tê-lo ao meu lado no escuro. Gostaria muito de não ter desperdiçado as últimas noites evitando-o. Mergulho no sono, envolvida em seu calor, e quando abro novamente os olhos, a luz do sol está entrando pelas janelas.
- Sem pesadelos - diz ele.
- Sem pesadelos - confirmo. - E você?
- Nada. Já tinha esquecido de como era uma verdadeira noite de sono.
Ficamos deitados por um tempo, sem nenhuma pressa para começar o dia. Amanhã à noite será a entrevista na televisão, então hoje Effie e Haymitch vão passar o dia nos orientando. Mais salto alto e comentários sarcásticos, acho. Mas então a ruiva Avox entra com um bilhete de Effie dizendo que, devido à nossa recente turnê, tanto ela quanto Haymitch concordaram que sabemos nos comportar em público adequadamente. As sessões de treinamento foram canceladas.
- É mesmo? - diz Peeta, pegando o bilhete na minha mão e examinando-o. - Você sabe o que isso significa? Teremos o dia inteiro para nós dois.
- Mas é muito ruim a gente não poder ir a lugar algum - digo, em tom de lamentação.
- Quem disse que não?
O terraço. Pedimos um monte de comida, pegamos alguns cobertores e vamos direto para o terraço fazer um piquenique. Um piquenique de um dia inteiro no jardim repleto de sininhos do vento. Nós comemos. Ficamos deitados ao sol. Arranco algumas trepadeiras e uso o meu recém-adquirido conhecimento para dar nós e tecer redes. Peeta me desenha. Inventamos um jogo com o campo de força que cerca o terraço - um de nós joga uma maçã em cima do outro e a outra pessoa tem que pegá-la.
Ninguém nos perturba. No fim da tarde, deito-me com a cabeça no colo de Peeta e faço uma coroa de flores enquanto ele mexe nos meus cabelos, afirmando que está treinando fazer nós. Depois de um tempo suas mãos ficam paradas.
- O que é?
- Gostaria muito de poder congelar esse momento, bem aqui, nesse instante, e viver assim para sempre - diz ele.
Normalmente essa espécie de comentário, o tipo que indica seu eterno amor por mim, faz com que eu me sinta mal e culpada. Mas estou me sentindo tão aconchegada e relaxada, e além de qualquer preocupação com um futuro que jamais terei, que simplesmente deixo a palavra me escapar dos lábios:
- Tudo bem.
Posso ouvir o sorriso na voz dele.
- Então você permite?
- Permito.
Os dedos dele voltam para os meus cabelos e adormeço, mas ele me desperta para que eu vejo o pôr do sol. É uma espetacular tonalidade alaranjada por trás dos arranha-céus da Capital.
- Imaginei que você não fosse querer perder isso.
- Obrigada - digo. Porque consigo contar nos dedos o número de vezes em que vi o sol se pondo e não quero perder mais nenhum.
Não nos juntamos aos outros para o jantar e ninguém nos convoca.
- Estou contente. Estou cansado de deixar todo mundo triste ao meu redor - diz Peeta. - Todo mundo chorando. Ou Haymitch... - Ele não precisa continuar.
Ficamos no terraço até a hora de dormir e então voltamos em silêncio para o meu quarto sem encontrar ninguém.

Em Chamas, Suzanne Collins

Interlúdio - As partes que nos formam


- Então, para você, descrever uma bela mulher é tão simples quanto contemplá-la?
Bast baixou os olhos e enrubesceu, e Kvothe pôs a mão em seu braço, com delicadeza, sorrindo:
- O meu problema, Bast, é que ela é muito importante. Importante para a história. Não consigo pensar num modo de descrevê-la sem ficar aquém da realidade.
- Acho... acho que entendo, Reshi - disse Bast em tom conciliatório. - Também a vi. Uma vez.
Kvothe reclinou-se na cadeira, surpreso.
- Foi mesmo, não é? Eu havia esquecido - disse. Pressionou a boca com as mãos. - E como você a descreveria?
Bast se iluminou ante essa oportunidade. Endireitando-se na cadeira, assumiu um ar pensativo por um momento e disse:
- Tinha orelhas perfeitas.- Fez um gesto delicado com as mãos. - Orelinhas perfeitas, como se tivessem sido entalhadas em... alguma coisa.
O Cronista riu, depois pareceu voltar atrás, como se tivesse surpreendido a si mesmo.
- Orelhas? - perguntou, como se não tivesse certeza de haver escutado direto.
- O senhor sabe como é difícil encontrar uma moça bonita com o tipo correto de orelhas - retrucou Bast com ar displicente.
O Cronista tornou a rir, parecendo achar mais fácil fazê-lo da segunda vez.
- Não. Tenha certeza de que não sei.
Bast lançou um olhar de profunda piedade ao colecionador de histórias.
- Bem, nesse caso, terá que aceitar minha palavra. As dela eram excepcionalmente bonitas.
O Nome do Vento, Patrick Rothfuss