esse moldador de sombrio e mutável olhar
a mão estendeu para o céu negro tocar.
arrancou a lua, mas não a manteve parada.
e agora ela oscila entre mortal e encantada.
tua história, aí a tens.
são o teu como e o teu quem.
resta agora um segredo final.
atenta, mocho, com teu ouvido mortal.
tem a lua nossos dois mundos enfeitiçados,
qual pais ao mesmo filho agarrados.
cada um para seu lado a puxar,
sem que possam reter nem largar.
quando puxada, em teu céu pela metade,
vês a distância que nossa união invade.
por longo o tempo que nos beijemos,
nenhuma força nesse espaço exercemos.
e quando a tua lua brilha, cheia,
todos os encantados prende em sua teia.
impele-nos para junto feito açoite,
e então, uma visita de uma noite
é fácil como um largo portal cruzar,
como em mansa praia aportar.
e foi assim que, vagando nos ermos, sozinho,
Feluriana encontraste, varãozinho.
E de todos o Encantados isso é verdade?
sabendo o caminho e tendo vontade,
mil portas semicerradas
mantêm teu mundo e o meu interligados.
E como isso nunca foi sabido?
Seria difícil passar despercebido.
Fadas dançando pelo mortal relvado...
assim não se deu há pouco, no passado?
longo é o tempo e vasto o chão,
mas inda assim me ouviste a canção,
antes de ali me veres a cantar,
penteando o cabelo com o luar.
Parece-me, porém,
que outros outros sinais haveria desse vaivém.
sutis e furtivos são os encantados,
leves qual fumaça em passos ensaiados.
envoltos em sombras circulam uns entre os teus,
ora carregados de fardos como pobres plebeus,
ora, talvez, em mantos de rainha vestidos.
sabemos agir para não ser percebidos.
muitos haveria, os de tipo mais malsão,
ávidos por usar os teus por diversão.
o que lhes barra esse ataque enluarado?
o ferro, o fogo, o vidro espelhado.
o olmeiro, o freixo e facas de cobre,
esposas camponesas de coração nobre,
que as regras conhecem dos jogos que fazemos,
que pão nos deixam, e a distância mantemos.
mas o pior de tudo, o que mais pavor nos traz,
é o poder que perdemos ao pisar na terra dos mortais.
enquanto ela está cheia, teu riso é precioso,
mas fica tu sabendo que há um lado tenebroso.
teme o sensato mortal
a noite sem do luar um sinal.
em noite assim, a cada pequeno passo,
a escura esteira da lua te aprisiona em seu laço.
para o mundo encantado te sentes atraído, sem querer.
e lá, nada te restará senão permanecer.
em terreno tão inexplorado a pisar,
que pode um mortal senão se afogar?
faço isso para que não deixes de escutar.
o homem sábio teme as noites sem luar.
O Temor do Sábio - Patrick Rothfuss